Uma reflexão estoica sobre a primeira eleição presidencial pós-ditadura e o eterno conflito entre espetáculo e sabedoria.
Meditações
Ely Machado, MBA em Gestão Pública, especialista em Cidades Inteligentes, Meio Ambiente e Geopolítica. Pós-graduado em Políticas Públicas e Educação. Geógrafo, estóico.
segunda-feira, 15 de junho de 2026
1989: Quando o Gênio Virou Palhaço e os Palhaços Viraram Gênios
O Ovo de Colombo e os Sistemas de Controle: uma reflexão histórica sobre a simplicidade que organiza o caos
Existe uma antiga narrativa atribuída a Cristóvão Colombo que atravessou séculos como uma metáfora da inovação. Após retornar de sua viagem ao continente americano, alguns nobres espanhóis teriam diminuído seu feito afirmando que, uma vez descoberta a rota, qualquer homem seria capaz de repeti-la. Colombo então propôs um desafio: fazer um ovo permanecer em pé sobre uma mesa.
Todos tentaram e fracassaram. Colombo, por sua vez, bateu levemente a extremidade do ovo contra a superfície, achatando-a o suficiente para que permanecesse equilibrado. Os presentes protestaram. A solução parecia óbvia depois de realizada. Colombo respondeu que essa era precisamente a diferença entre imaginar e fazer.
O episódio, verdadeiro ou não, tornou-se um dos mais importantes símbolos da história da inovação humana. A grande descoberta não está necessariamente na complexidade da solução, mas na capacidade de enxergar aquilo que ninguém havia percebido.
O mercado empresarial vive permanentemente o mesmo dilema.
Quando observamos uma empresa em crescimento, encontramos quase sempre os mesmos problemas: estoques desorganizados, informações desencontradas, compras feitas sem planejamento, vendas que não dialogam com a logística, setores que funcionam como ilhas independentes. O gestor, diante desse cenário, frequentemente acredita que o problema exige soluções extraordinariamente complexas.
Contudo, a história da administração demonstra justamente o contrário.
Desde as primeiras civilizações da Mesopotâmia, quando sacerdotes registravam em tábuas de argila a entrada e saída de grãos, até os modernos sistemas ERP, a evolução da gestão não ocorreu pela criação de mecanismos cada vez mais sofisticados, mas pela construção de formas cada vez mais simples de controlar a realidade.
O princípio permanece o mesmo há cinco mil anos: registrar, comparar e corrigir.
Um sistema de controle empresarial é, em essência, um “ovo de Colombo”. Depois de implantado, todos se perguntam por que a empresa não fazia aquilo antes. O gestor passa a visualizar o estoque em tempo real, acompanha indicadores financeiros, monitora margens de lucro e identifica gargalos operacionais. O que antes parecia um milagre tecnológico revela-se apenas uma organização racional da informação.
Mas há um aspecto ainda mais profundo nessa metáfora.
O ovo não simboliza apenas a inovação. Ele representa a ruptura com o senso comum. A maioria das empresas tenta resolver problemas aumentando a complexidade. Contratam mais pessoas para conferir processos já confusos. Criam planilhas para controlar outras planilhas. Produzem relatórios que exigem novos relatórios para serem compreendidos.
É o equivalente a tentar equilibrar o ovo repetindo os mesmos movimentos de quem fracassou antes.
Os grandes sistemas de gestão surgem quando alguém faz a pergunta correta: “E se o problema estiver na forma como estamos tentando resolver o problema?”
Foi assim com a contabilidade moderna de Luca Pacioli, foi assim com a produção em série de Henry Ford e foi assim com os modernos sistemas integrados que transformaram a gestão empresarial contemporânea.
A história econômica demonstra que empresas raramente fracassam por falta de esforço. Geralmente fracassam por falta de visibilidade. Não conseguem enxergar seus próprios números, seus desperdícios ou suas oportunidades.
Nesse sentido, um sistema de controle não é apenas uma ferramenta tecnológica. Ele é uma lente filosófica. Permite que a organização veja a si mesma.
E talvez essa seja a maior lição do ovo de Colombo para o mundo corporativo: o progresso não acontece quando tornamos os problemas mais complexos; acontece quando encontramos uma forma mais inteligente de observá-los.
A genialidade, afinal, quase sempre parece simples depois que alguém a realiza. Como o ovo equilibrado sobre a mesa, o melhor sistema de gestão é aquele que, uma vez implantado, faz todos acreditarem que a solução sempre esteve ali. Entretanto, entre o caos e a ordem, existe uma diferença fundamental: alguém precisou ter a coragem de ser o primeiro a achatar o ovo.
O Direito ao Ócio: Uma Reflexão Filosófica Sobre a Infância Terapêutica
Vivemos uma época marcada pela expansão dos diagnósticos, pela especialização do conhecimento e pela crença de que toda dificuldade humana pode ser corrigida mediante intervenções técnicas. Entre os fenômenos mais evidentes desse tempo está o aumento dos diagnósticos de transtornos do neurodesenvolvimento, especialmente do autismo. Não cabe aqui discutir a validade desses diagnósticos nem a importância das terapias que frequentemente os acompanham. A questão é outra, mais antiga e talvez mais filosófica: existe um limite para o cuidado?
Muitas crianças passam boa parte de suas semanas entre consultas, avaliações e terapias. Fonoaudiologia, psicologia, musicoterapia, terapia ocupacional, acompanhamento nutricional, reforço pedagógico e uma extensa agenda de atividades ocupam o cotidiano infantil. A intenção é nobre: ampliar capacidades, desenvolver habilidades e oferecer melhores condições de vida. Entretanto, raramente se pergunta qual é o custo existencial dessa agenda.
A filosofia grega possuía uma palavra curiosa para aquilo que hoje chamamos de tempo livre: scholé. Dela surgiu a palavra “escola”. Para os gregos, o verdadeiro aprendizado não nascia da ocupação constante, mas da possibilidade de contemplar, observar, experimentar e simplesmente existir sem finalidade imediata. O ócio não era visto como desperdício, mas como condição fundamental para a formação humana.
Séculos depois, filósofos como Aristóteles sustentariam que a vida boa não consiste em uma atividade incessante, mas na justa medida entre ação e repouso. O ser humano não floresce apenas quando produz; floresce também quando contempla.
A infância sempre foi, em certa medida, o território privilegiado dessa contemplação. Brincar sem objetivo, caminhar sem destino, inventar mundos imaginários e observar as nuvens foram atividades que moldaram gerações inteiras. Contudo, a sociedade contemporânea parece desconfiar do vazio. Cada hora deve ser preenchida. Cada comportamento deve ser avaliado. Cada dificuldade deve ser corrigida. A criança torna-se um projeto permanente de aperfeiçoamento.
Não se trata de negar os benefícios das terapias. Muitas delas transformam vidas e oferecem recursos fundamentais para crianças e famílias. A questão é se estamos medindo com o mesmo rigor aquilo que não aparece nos relatórios clínicos: a fadiga emocional, o cansaço físico, a sobrecarga cognitiva e a possível perda da espontaneidade.
Uma criança que passa o dia inteiro sendo observada, estimulada, avaliada e corrigida ainda encontra espaço para simplesmente ser criança? Existe algum instrumento capaz de medir a ausência do brincar livre? Há algum protocolo que quantifique o valor de uma tarde sem objetivos?
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han argumenta que a sociedade contemporânea produz indivíduos exaustos não pela opressão, mas pelo excesso de estímulos e exigências. Embora escrevesse sobre adultos, sua reflexão permite uma pergunta inquietante: estaríamos construindo uma infância da performance terapêutica?
Talvez a grande questão não seja quantas terapias uma criança consegue frequentar, mas quanto espaço permanece disponível para a experiência livre da infância. Afinal, nem tudo aquilo que possui valor pode ser mensurado. Nem todo desenvolvimento ocorre sob observação profissional. E talvez algumas das capacidades mais importantes da vida, imaginação, autonomia, criatividade e autoconhecimento, necessitem precisamente daquilo que o mundo moderno menos tolera: o tempo sem finalidade.
Entre o abandono e a superintervenção existe um território esquecido. Esse território chama-se ócio. Não o ócio da negligência, mas o ócio criativo; não a ausência de cuidado, mas a presença do tempo. E talvez uma das tarefas filosóficas de nosso século seja recordar que o ser humano não se forma apenas através daquilo que lhe ensinamos, mas também através dos momentos em que permitimos que descubra o mundo por si mesmo.
domingo, 14 de junho de 2026
O Homem, a Barraca e a Montanha
Não fui para a Serra da Piedade em busca de iluminação.
Fui em busca de abrigo.
Há uma grande diferença entre as duas coisas.
Os livros gostam de contar histórias sobre homens que sobem montanhas para encontrar a si mesmos. A realidade costuma ser menos romântica. Quando cheguei ali, não buscava sabedoria. Buscava um lugar onde pudesse continuar existindo.
Estava quebrado por dentro.
Era um daqueles momentos em que o homem já não deseja conquistar o mundo. Deseja apenas um canto onde a dor faça menos barulho.
Lembro-me do corretor.
Natalino.
Como esquecer?
Mostrou-me uma área simples, sem grandes promessas. Não comprei porque vi um futuro extraordinário. Comprei porque o terreno podia ser pago em duzentas parcelas.
Duzentas.
Naquele momento, meu objetivo não era prosperar. Era continuar de pé.
Com o pouco dinheiro que tinha, contratei uma máquina para abrir um platô na terra bruta. Depois veio um caminhão de concreto. Nada grandioso. Apenas o suficiente para construir um piso sobre o qual eu pudesse recomeçar.
Hoje percebo que aquele piso era mais do que concreto.
Era uma declaração silenciosa.
Quando tudo desmorona, o primeiro dever do homem é construir um chão.
Sobre esse chão montei uma barraca de acampamento.
E fiquei.
Não por alguns dias.
Nem por algumas semanas.
Três anos.
Enquanto o mundo acelerava, eu diminuía o ritmo.
Enquanto tantos disputavam atenção, eu aprendia o valor do anonimato.
Enquanto a internet transformava opiniões em mercadoria, eu observava montanhas, nuvens e estações.
Foi ali que estudei geografia.
Aprendi que rios, montanhas e vales possuem uma paciência que os homens perderam.
Foi ali que estudei filosofia.
Descobri que muitas perguntas que julgamos novas já inquietavam os antigos há milhares de anos.
E foi ali que encontrei o estoicismo.
Não como teoria.
Nem como moda intelectual.
Mas como necessidade.
Os estoicos ensinam que devemos distinguir aquilo que controlamos daquilo que não controlamos.
Na cidade, essa frase parece apenas uma boa ideia.
Na montanha, torna-se uma questão de sobrevivência.
Eu não controlava a chuva.
Nem o vento.
Nem as dificuldades financeiras.
Nem o passado que me levou até ali.
Mas controlava a forma como enfrentaria cada uma dessas coisas.
E isso bastava.
Com o tempo, compreendi algo que raramente aparece nos discursos motivacionais.
Nem toda reconstrução começa com um projeto ambicioso.
Algumas começam com uma barraca.
Com um terreno parcelado em duzentas vezes.
Com um piso de concreto perdido na serra.
Com um homem cansado que já não pede felicidade à vida, apenas uma chance de recomeçar.
Os antigos acreditavam que o caráter é forjado pela adversidade.
Se isso for verdade, a Serra da Piedade foi minha oficina.
Ali aprendi que a solidão não é inimiga do homem.
Inimiga é a incapacidade de permanecer consigo mesmo.
Também descobri que possuir pouco pode ser uma forma de liberdade.
E compreendi que a dignidade não depende do tamanho da casa, mas da firmeza com que alguém atravessa os próprios invernos.
Quando olho para trás, não vejo apenas uma barraca sobre um piso de concreto.
Vejo as ruínas de um homem e o nascimento de outro.
Talvez essa seja a verdadeira função das montanhas.
Não nos aproximar do céu.
Mas nos afastar do ruído o suficiente para ouvirmos quem realmente somos.
A Serra e a Montanha de Zaratustra
Durante três anos vivi no meio do nada.
Não era uma metáfora. Não era um retiro de fim de semana vendido como experiência espiritual. Era o silêncio verdadeiro. A ausência de internet. A distância das urgências artificiais. A economia dos recursos. O contato diário com os limites concretos da existência.
Enquanto o mundo discutia tendências, algoritmos e escândalos passageiros, eu aprendia algo mais antigo: como sobreviver.
Na região da Serra da Piedade, descobri que muitas das necessidades que julgamos indispensáveis são apenas hábitos. O homem moderno vive cercado por excessos e, ainda assim, sente-se permanentemente carente. O isolamento me ensinou o contrário: quanto menos eu possuía, menos coisas podiam me possuir.
Foi ali que compreendi uma verdade que os estoicos já conheciam há dois mil anos. A riqueza não está em acumular bens, mas em reduzir dependências.
Ao recordar esse período, não consigo evitar a imagem de Zaratustra descendo da montanha.
Não porque eu tenha encontrado revelações extraordinárias. Não porque tenha regressado como profeta. Mas porque a montanha produz um fenômeno raro: ela remove o ruído.
Na solidão, as opiniões dos outros perdem importância. Os aplausos desaparecem. As disputas por status tornam-se ridículas. O homem deixa de ser aquilo que os outros esperam dele e passa a confrontar aquilo que realmente é.
Esse encontro nem sempre é agradável.
Há dias em que a solidão parece liberdade.
Há dias em que parece abandono.
Há noites em que o silêncio produz paz.
Há noites em que revela vazios que a agitação da cidade escondia.
Zaratustra também enfrentou isso. Sua montanha não era apenas um lugar geográfico. Era um processo de separação. Um afastamento necessário para que as vozes externas diminuíssem e a voz interior pudesse finalmente ser ouvida.
A Serra da Piedade cumpriu papel semelhante em minha vida.
Ali escrevi poemas que talvez jamais escrevesse em meio ao barulho cotidiano. Ali aprendi que a escassez pode ser uma professora severa, mas honesta. Ali percebi que a natureza não negocia com ilusões e que o nascer do sol continua acontecendo independentemente de nossas angústias.
O homem contemporâneo acredita que liberdade é ter acesso a tudo.
Mas existe outra liberdade.
A liberdade de precisar de pouco.
A liberdade de suportar o desconforto.
A liberdade de permanecer sozinho sem ser devorado pela própria companhia.
Foi essa liberdade que encontrei entre montanhas, estradas vazias e dias silenciosos.
Quando Zaratustra desce da montanha, ele retorna para os homens. Não porque tenha passado a desprezar a solidão, mas porque compreende que a sabedoria não foi feita para permanecer escondida.
Toda montanha é temporária.
Todo retiro é provisório.
Chega um momento em que o homem deve retornar ao mundo e colocar à prova aquilo que aprendeu quando estava sozinho.
O verdadeiro teste do estoicismo não acontece na tranquilidade da montanha.
Acontece no mercado.
No amor.
Na política.
Nos conflitos.
Nas perdas.
Nas reconciliações.
A montanha ensina.
Mas é a vida que examina.
E talvez a maior lição daqueles três anos não tenha sido aprender a viver isolado.
Talvez tenha sido descobrir que, depois de aprender a caminhar sozinho, já não se teme tanto caminhar entre os outros.
O Homem que Não Compreendia o Futebol
Dizem que há algo de estranho naquele que não se emociona com o futebol. A multidão grita, canta, sofre e celebra; ele observa em silêncio. Enquanto milhares encontram sentido em noventa minutos de jogo, ele busca significado em livros, ideias e longas reflexões sobre a condição humana.
Mas o estoico perguntaria: estranho para quem?
A natureza não distribuiu os mesmos interesses aos homens. Alguns encontram beleza no estádio iluminado; outros, numa biblioteca silenciosa. Alguns são movidos pela paixão da disputa; outros, pela contemplação das causas e consequências das coisas. Nenhum dos dois está errado. Errado é acreditar que a felicidade possui uma única forma.
O futebol, como tantas outras paixões humanas, é um símbolo. A bola é apenas uma bola. O campo é apenas um campo. O que move os homens não é o objeto, mas o significado que depositam nele. O torcedor não celebra um gol; celebra pertencimento. Não veste uma camisa; veste uma identidade. Não acompanha um campeonato; acompanha uma narrativa na qual escolheu acreditar.
E não fazemos todos o mesmo?
O filósofo deposita significado em suas ideias. O poeta em suas palavras. O político em suas causas. O empresário em seus números. O amante em suas promessas. O homem é um animal que fabrica significados para suportar a brevidade da existência.
Por isso, não compreender o futebol não é um problema. O problema seria não compreender nada. Seria atravessar a vida sem uma paixão digna, sem um propósito, sem algo que justificasse o despertar de cada manhã.
Os antigos estoicos ensinavam que devemos viver de acordo com nossa natureza. Se sua natureza não encontra entusiasmo nos estádios, não force entusiasmo. A aprovação da multidão nunca foi um critério confiável para a verdade. O sábio não pergunta o que encanta a maioria; pergunta o que fortalece sua alma.
Talvez você observe uma final de campeonato e não sinta absolutamente nada. E está tudo bem. O importante é descobrir aquilo que produz em você o mesmo efeito que o futebol produz em milhões de pessoas: aquele raro instante em que o tempo desaparece, as preocupações silenciam e a existência parece possuir algum sentido.
Porque, no fundo, a questão nunca foi o futebol.
A questão é que todos os homens procuram uma razão para continuar caminhando.
Uns a encontram em uma arquibancada.
Outros a encontram em uma página.
E ambos estão apenas tentando responder à mesma pergunta que acompanha a humanidade desde o princípio: como viver uma vida que valha a pena ser vivida?
segunda-feira, 8 de junho de 2026
O Fenótipo do Eleitor Afilosófico
Os antigos gregos acreditavam que a política era a continuação natural da filosofia. O cidadão deveria compreender o mundo antes de pretender transformá-lo. O novo eleitor fez o caminho inverso: deseja transformar tudo sem compreender absolutamente nada.
Seu universo repousa sobre três pilares inabaláveis: futebol, Instagram e opinião instantânea.
Do futebol herdou a lógica tribal. Não importa quem está certo; importa quem veste a camisa do meu lado. O adversário não é alguém com uma ideia diferente, mas um inimigo moral que deve ser derrotado. O debate tornou-se clássico de domingo, arquibancada contra arquibancada, onde o grito substitui o argumento.
Do Instagram herdou a necessidade permanente de espetáculo. A realidade precisa caber em um story de quinze segundos. O candidato é avaliado pelo corte de cabelo, pelo slogan, pela fotografia ao lado de uma criança ou de um cachorro. A estética venceu a substância por goleada.
Da ausência de filosofia herdou a incapacidade de formular perguntas fundamentais. Não investiga causas, não analisa consequências, não examina contradições. Consome narrativas prontas como quem consome fast-food: rápido, barato e sem valor nutritivo para a inteligência.
Seu candidato não precisa ser virtuoso. Precisa ser viral.
Seu programa de governo não precisa ser consistente. Precisa render compartilhamentos.
Seu compromisso não é com a verdade. É com a torcida.
Enquanto isso, os problemas reais permanecem sentados silenciosamente na sala: educação precária, produtividade baixa, dependência econômica, corrupção estrutural, insegurança jurídica. Mas tais temas são longos demais para competir com vídeos de gols, dancinhas e cortes de influenciadores especialistas em tudo e conhecedores de nada.
Marco Aurélio escrevia para dominar a si mesmo. O eleitor moderno comenta para ser visto.
Sêneca advertia sobre a escravidão das paixões. O eleitor contemporâneo acorda escravo da notificação.
Epicteto ensinava que devemos distinguir o que controlamos do que não controlamos. O novo cidadão, por sua vez, acredita controlar o destino da nação compartilhando um meme às duas da manhã.
A consequência é inevitável: uma democracia cada vez mais emocional e cada vez menos racional. O voto deixa de ser um instrumento de julgamento para tornar-se um ato de pertencimento tribal.
Talvez a decadência não comece quando maus governantes chegam ao poder. Talvez comece quando os cidadãos deixam de buscar a verdade e passam a buscar apenas confirmação para seus preconceitos.
E assim prospera o novo fenótipo eleitoral: especialista em escalações de futebol, mestre em filtros de Instagram, doutor em frases prontas e analfabeto nas questões fundamentais da existência.
Nunca houve tanta informação disponível.
E nunca foi tão raro encontrar alguém disposto a pensar.
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