sexta-feira, 13 de março de 2026

A Política sem Virtude: o Populismo contra a Razão


A tradição do Estoicismo sempre tratou a política como uma extensão da virtude. Para pensadores como Sêneca, Epicteto e o imperador Marco Aurélio, governar não era um exercício de popularidade, mas um compromisso moral com a razão, a justiça e o bem comum. Quando observamos certas práticas da política contemporânea, torna-se inevitável o contraste entre esse ideal clássico e o que frequentemente se tornou a prática populista.


O populismo político moderno muitas vezes substitui virtude por espetáculo e responsabilidade institucional por gestos de proximidade artificial com o eleitorado. Em vez de investir na capacidade técnica do mandato, que inclui elaboração legislativa, fiscalização qualificada do Executivo e formulação de políticas públicas, muitos parlamentares constroem sua base de apoio através de redes de favores. Surgem então associações improvisadas, clínicas de baixa qualidade, eventos comunitários permanentes e estruturas paralelas que funcionam mais como instrumentos de fidelização eleitoral do que como solução real para os problemas da população.


Sob o olhar estoico, isso representa uma inversão de prioridades. O político virtuoso deveria concentrar seus esforços naquilo que depende de sua função: legislar bem, fiscalizar com rigor e defender princípios racionais. Porém, o populista prefere ocupar seu tempo em atividades periféricas que geram visibilidade imediata, mas pouco contribuem para a transformação estrutural da sociedade.


Outro sintoma dessa distorção aparece na formação dos gabinetes. Em vez de equipes tecnicamente qualificadas, capazes de analisar projetos, produzir estudos e formular políticas, muitos mandatos tornam-se extensões de redes pessoais ou eleitorais. Assessores são escolhidos pela lealdade ou pela utilidade eleitoral, não pela competência. O resultado é um empobrecimento da própria atividade parlamentar, com debates superficiais, dependência de orientações externas e incapacidade de produzir soluções legislativas consistentes.


O estoicismo ensina que o poder exige disciplina interior. Para Marco Aurélio, o governante deveria constantemente perguntar a si mesmo se suas ações servem à razão ou apenas à vaidade. Quando parlamentares aceitam cargos no Executivo em troca de alinhamento político ou mantêm voto automático nas pautas governistas, abandonam justamente essa autonomia moral. A política deixa de ser um espaço de deliberação racional e passa a funcionar como um mecanismo de conveniência e sobrevivência.


Do ponto de vista estoico, a verdadeira decadência política não ocorre apenas quando há corrupção explícita, mas quando a virtude é substituída pela utilidade imediata. O político que troca o dever institucional por favores cotidianos pode até conquistar popularidade momentânea, mas enfraquece o próprio sistema que deveria fortalecer.


A lição dos estoicos é simples e severa. Governar exige caráter antes de popularidade. A política baseada em favores, improviso técnico e submissão automática ao poder não é apenas ineficiente, ela é sobretudo um sinal de que a virtude deixou de ser o centro da vida pública.


Como lembrava Sêneca, nenhum vento é favorável para quem não sabe para onde vai. Sem virtude, a política pode até produzir aplausos, mas dificilmente produzirá grandeza.


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