Alguns homens nascem em berços confortáveis. Outros nascem à beira de um córrego e aprendem desde cedo que a vida não oferece atalhos.
Nasci e cresci em Benfica, entre as limitações de uma família simples e os sonhos que pareciam maiores que as circunstâncias. Estudei em escola pública, onde compreendi que a verdadeira riqueza não estava no que possuíamos, mas na capacidade de imaginar um destino diferente.
Ainda jovem, fui para o movimento estudantil. Aos 14 anos deixei minha terra e segui para Rio Pomba. Estudei na escola agrícola, mas o destino tinha outros planos. Aos 15 anos, já presidente de uma entidade estudantil estadual, mudei-me para Belo Horizonte carregando pouco mais que coragem e convicção.
Os estoicos ensinam que o homem não escolhe as condições da viagem, mas escolhe a forma como caminha. E foi caminhando que construí minha história.
Trabalhei em jornal, fui diagramador, servidor universitário, técnico de planejamento e professor. Enquanto muitos esperavam oportunidades, aprendi a criá-las. Aos 19 anos construí minha primeira casa. Depois vieram outras. Não apenas paredes e telhados, mas símbolos concretos de uma vida erguida tijolo por tijolo.
Em Sabará, fui professor de Geografia e construí mais três casas. Mais tarde retornei para Juiz de Fora e ergui aquela que se tornaria minha morada definitiva. Ao longo do caminho fui assessor parlamentar, gestor, estudante permanente e profissional dedicado.
Conquistei três pós-graduações nas áreas de gestão pública, meio ambiente e educação. Porque o conhecimento, assim como a virtude, nunca está concluído. Ambos exigem cultivo diário.
Aos 45 anos enfrentei um dos maiores desafios da vida pública. Candidatei-me a vereador em minha cidade. Diziam que seriam necessários 2.500 votos. Recebi quase 2.000. Não foi suficiente para a vitória eleitoral.
Mas naquele dia aprendi uma das mais duras lições da existência.
Quando o resultado foi anunciado, apenas um amigo me telefonou.
Para muitos, aquilo poderia ser visto como fracasso. Para um estoico, foi revelação.
Os aplausos são passageiros. As multidões são inconstantes. O reconhecimento raramente acompanha o esforço na mesma proporção. A única companhia permanente é a própria consciência.
Marco Aurélio escreveu que o valor de um homem é medido pelo valor das coisas às quais ele dedica sua vida. E eu jamais dediquei minha vida aos aplausos.
Dediquei minha vida ao trabalho.
Hoje, aos 47 anos, depois de enfrentar uma separação dolorosa, continuo de pé. A dor visitou minha casa, mas não ocupou minha alma. Perdi amores, perdi projetos, perdi ilusões. Mas preservei aquilo que importa: a capacidade de seguir adiante.
Continuo trabalhando intensamente. Continuo construindo. Continuo ajudando a dirigir uma grande rede de proteínas que também carrega parte do meu esforço e da minha história. Continuo estudando. Continuo me preparando.
Porque a vida não recompensa os que nunca caem. A vida revela os que sempre se levantam.
O córrego de Benfica ficou para trás, mas nunca saiu de mim. Ele me ensinou que a correnteza empurra muitos. Poucos escolhem nadar contra ela.
E talvez seja essa a verdadeira medida de uma existência.
Não os cargos ocupados.
Não as casas construídas.
Não as eleições vencidas ou perdidas.
Mas a disposição de permanecer firme quando a sorte muda, quando os amigos desaparecem, quando o amor parte e quando a vida exige mais uma vez que você recomece.
Eis a tarefa do homem.
Continuar.
Sempre continuar.
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