As horas passam.
Passam sobre os telhados, sobre os campos, sobre os rostos jovens e sobre as mãos enrugadas. Passam sobre os amores que julgávamos eternos e sobre as dores que acreditávamos insuportáveis. Nenhuma delas permanece. Nem a alegria mais intensa, nem a tristeza mais profunda.
O homem comum sofre porque deseja deter o relógio. Quer conservar a juventude, prolongar os aplausos, impedir a despedida. Mas a natureza jamais assinou esse contrato. Tudo o que nasce caminha silenciosamente em direção à transformação.
Os estoicos compreenderam algo que poucos aceitam: não somos donos do tempo. Somos apenas viajantes dentro dele.
A cada hora que morre, uma parte de nós também desaparece. Não como tragédia, mas como condição da existência. O menino deixa de existir para que surja o adulto. O adulto desaparece para que nasça o velho. E o velho entrega seu lugar ao mistério que aguarda todos os homens.
Há uma estranha paz em reconhecer isso.
As folhas não lamentam o outono. Os rios não resistem ao mar. As estrelas não discutem com a noite. Apenas cumprem sua natureza. O sofrimento humano nasce muitas vezes dessa rebelião inútil contra aquilo que não pode ser evitado.
As horas passam.
Passam levando amigos, paixões, projetos e ilusões. Mas também levam mágoas, fracassos, humilhações e medos. O mesmo tempo que rouba é o tempo que cura. O mesmo relógio que anuncia despedidas também prepara reencontros inesperados.
Por isso, não peça ao tempo que pare.
Peça apenas sabedoria para atravessá-lo com dignidade.
Quando a próxima hora chegar, receba-a como quem recebe uma visita inevitável. Quando ela partir, despeça-se sem rancor. Nenhuma hora foi feita para ser possuída.
A verdadeira liberdade não está em vencer o tempo, mas em caminhar ao lado dele sem desespero.
E quando a última hora finalmente bater à porta, que ela encontre um homem sereno, capaz de dizer:
“Eu não tentei prender os dias. Eu os vivi.”
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