Os antigos gregos acreditavam que a política era a continuação natural da filosofia. O cidadão deveria compreender o mundo antes de pretender transformá-lo. O novo eleitor fez o caminho inverso: deseja transformar tudo sem compreender absolutamente nada.
Seu universo repousa sobre três pilares inabaláveis: futebol, Instagram e opinião instantânea.
Do futebol herdou a lógica tribal. Não importa quem está certo; importa quem veste a camisa do meu lado. O adversário não é alguém com uma ideia diferente, mas um inimigo moral que deve ser derrotado. O debate tornou-se clássico de domingo, arquibancada contra arquibancada, onde o grito substitui o argumento.
Do Instagram herdou a necessidade permanente de espetáculo. A realidade precisa caber em um story de quinze segundos. O candidato é avaliado pelo corte de cabelo, pelo slogan, pela fotografia ao lado de uma criança ou de um cachorro. A estética venceu a substância por goleada.
Da ausência de filosofia herdou a incapacidade de formular perguntas fundamentais. Não investiga causas, não analisa consequências, não examina contradições. Consome narrativas prontas como quem consome fast-food: rápido, barato e sem valor nutritivo para a inteligência.
Seu candidato não precisa ser virtuoso. Precisa ser viral.
Seu programa de governo não precisa ser consistente. Precisa render compartilhamentos.
Seu compromisso não é com a verdade. É com a torcida.
Enquanto isso, os problemas reais permanecem sentados silenciosamente na sala: educação precária, produtividade baixa, dependência econômica, corrupção estrutural, insegurança jurídica. Mas tais temas são longos demais para competir com vídeos de gols, dancinhas e cortes de influenciadores especialistas em tudo e conhecedores de nada.
Marco Aurélio escrevia para dominar a si mesmo. O eleitor moderno comenta para ser visto.
Sêneca advertia sobre a escravidão das paixões. O eleitor contemporâneo acorda escravo da notificação.
Epicteto ensinava que devemos distinguir o que controlamos do que não controlamos. O novo cidadão, por sua vez, acredita controlar o destino da nação compartilhando um meme às duas da manhã.
A consequência é inevitável: uma democracia cada vez mais emocional e cada vez menos racional. O voto deixa de ser um instrumento de julgamento para tornar-se um ato de pertencimento tribal.
Talvez a decadência não comece quando maus governantes chegam ao poder. Talvez comece quando os cidadãos deixam de buscar a verdade e passam a buscar apenas confirmação para seus preconceitos.
E assim prospera o novo fenótipo eleitoral: especialista em escalações de futebol, mestre em filtros de Instagram, doutor em frases prontas e analfabeto nas questões fundamentais da existência.
Nunca houve tanta informação disponível.
E nunca foi tão raro encontrar alguém disposto a pensar.
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