A história costuma dar mais espaço aos que fazem barulho. Aos que transformam a política em espetáculo, aos que vivem da frase de efeito e da necessidade permanente de aplausos. Mas, de tempos em tempos, surge alguém cuja maior virtude é justamente a ausência dessa necessidade. Para mim, Itamar Franco foi um desses homens.
Nascido por acaso em alto-mar, entre o Brasil e a Europa, parecia destinado a uma vida singular. Mas sua singularidade não estava na excentricidade dos fatos, e sim na maneira como conduziu o poder quando ele lhe caiu sobre os ombros.
O estoicismo ensina que o homem sábio não busca os cargos; busca cumprir seu dever. E quando o destino lhe entrega uma responsabilidade, ele não se pergunta se é conveniente, mas se é correto. Foi exatamente essa impressão que Itamar deixou.
Assumiu a Presidência em um dos períodos mais delicados da história nacional. O país atravessava uma crise institucional profunda, a economia parecia um organismo febril e a confiança da população estava esgotada. Muitos, diante daquele cenário, teriam procurado a glória pessoal. Teriam tentado construir uma imagem de salvador.
Itamar escolheu outro caminho.
Preferiu cercar-se de pessoas competentes. Aceitou dividir méritos. Entendeu algo que os estoicos repetem há mais de dois mil anos: o ego é um péssimo conselheiro.
Enquanto tantos políticos trabalham para serem lembrados, ele parecia trabalhar para resolver problemas. Enquanto outros buscavam protagonismo, ele aceitava a condição de servidor da circunstância. Não precisava ser o centro da fotografia; bastava que o país encontrasse alguma estabilidade.
Marco Aurélio escreveu que “a fama após a morte é a mesma coisa que o esquecimento”. Itamar parecia compreender isso intuitivamente. Nunca cultivou a obsessão moderna pela popularidade instantânea. Sabia que o valor de um homem não está no volume dos aplausos, mas na qualidade de suas decisões.
Sua trajetória também demonstra outra virtude estoica: a independência de espírito. Não foi um político facilmente encaixado em tribos ou correntes rígidas. Muitas vezes desagradou aliados e adversários porque preferia seguir a própria consciência. Há um preço alto para quem escolhe esse caminho: a solidão. Mas a liberdade quase sempre cobra esse preço.
Hoje, em uma época dominada pela ansiedade da exposição permanente, a figura de Itamar Franco parece ainda mais relevante. Sua vida nos lembra que firmeza não é agressividade, que autoridade não exige espetáculo e que a verdadeira força raramente precisa levantar a voz.
Talvez por isso sua imagem permaneça. Não como a de um herói fabricado pela propaganda, mas como a de um homem que compreendeu algo essencial: o dever vale mais que a vaidade, a serenidade vale mais que o aplauso e a consciência tranquila vale mais que qualquer poder.
Essa é uma lição profundamente estoica. E talvez seja por isso que Itamar Franco continue sendo lembrado como um dos raros homens públicos que pareciam governar não para si mesmos, mas para a responsabilidade que o destino lhes confiou.
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