Não fui para a Serra da Piedade em busca de iluminação.
Fui em busca de abrigo.
Há uma grande diferença entre as duas coisas.
Os livros gostam de contar histórias sobre homens que sobem montanhas para encontrar a si mesmos. A realidade costuma ser menos romântica. Quando cheguei ali, não buscava sabedoria. Buscava um lugar onde pudesse continuar existindo.
Estava quebrado por dentro.
Era um daqueles momentos em que o homem já não deseja conquistar o mundo. Deseja apenas um canto onde a dor faça menos barulho.
Lembro-me do corretor.
Natalino.
Como esquecer?
Mostrou-me uma área simples, sem grandes promessas. Não comprei porque vi um futuro extraordinário. Comprei porque o terreno podia ser pago em duzentas parcelas.
Duzentas.
Naquele momento, meu objetivo não era prosperar. Era continuar de pé.
Com o pouco dinheiro que tinha, contratei uma máquina para abrir um platô na terra bruta. Depois veio um caminhão de concreto. Nada grandioso. Apenas o suficiente para construir um piso sobre o qual eu pudesse recomeçar.
Hoje percebo que aquele piso era mais do que concreto.
Era uma declaração silenciosa.
Quando tudo desmorona, o primeiro dever do homem é construir um chão.
Sobre esse chão montei uma barraca de acampamento.
E fiquei.
Não por alguns dias.
Nem por algumas semanas.
Três anos.
Enquanto o mundo acelerava, eu diminuía o ritmo.
Enquanto tantos disputavam atenção, eu aprendia o valor do anonimato.
Enquanto a internet transformava opiniões em mercadoria, eu observava montanhas, nuvens e estações.
Foi ali que estudei geografia.
Aprendi que rios, montanhas e vales possuem uma paciência que os homens perderam.
Foi ali que estudei filosofia.
Descobri que muitas perguntas que julgamos novas já inquietavam os antigos há milhares de anos.
E foi ali que encontrei o estoicismo.
Não como teoria.
Nem como moda intelectual.
Mas como necessidade.
Os estoicos ensinam que devemos distinguir aquilo que controlamos daquilo que não controlamos.
Na cidade, essa frase parece apenas uma boa ideia.
Na montanha, torna-se uma questão de sobrevivência.
Eu não controlava a chuva.
Nem o vento.
Nem as dificuldades financeiras.
Nem o passado que me levou até ali.
Mas controlava a forma como enfrentaria cada uma dessas coisas.
E isso bastava.
Com o tempo, compreendi algo que raramente aparece nos discursos motivacionais.
Nem toda reconstrução começa com um projeto ambicioso.
Algumas começam com uma barraca.
Com um terreno parcelado em duzentas vezes.
Com um piso de concreto perdido na serra.
Com um homem cansado que já não pede felicidade à vida, apenas uma chance de recomeçar.
Os antigos acreditavam que o caráter é forjado pela adversidade.
Se isso for verdade, a Serra da Piedade foi minha oficina.
Ali aprendi que a solidão não é inimiga do homem.
Inimiga é a incapacidade de permanecer consigo mesmo.
Também descobri que possuir pouco pode ser uma forma de liberdade.
E compreendi que a dignidade não depende do tamanho da casa, mas da firmeza com que alguém atravessa os próprios invernos.
Quando olho para trás, não vejo apenas uma barraca sobre um piso de concreto.
Vejo as ruínas de um homem e o nascimento de outro.
Talvez essa seja a verdadeira função das montanhas.
Não nos aproximar do céu.
Mas nos afastar do ruído o suficiente para ouvirmos quem realmente somos.
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