segunda-feira, 15 de junho de 2026

1989: Quando o Gênio Virou Palhaço e os Palhaços Viraram Gênios

 Uma reflexão estoica sobre a primeira eleição presidencial pós-ditadura e o eterno conflito entre espetáculo e sabedoria.

A primeira eleição presidencial brasileira após a ditadura militar foi, para muitos, a celebração da liberdade. Para outros, foi a demonstração de uma velha fragilidade humana: a dificuldade de distinguir aparência e substância.
Os estoicos já conheciam esse fenômeno muito antes das urnas, dos partidos e da televisão. Para eles, a multidão frequentemente se deixa conduzir pelo brilho das palavras, pela força da imagem e pela habilidade do espetáculo. A virtude, ao contrário, quase sempre caminha em silêncio. Não se veste para impressionar. Não aprende a linguagem do aplauso.
Em 1989, o Brasil reencontrava o direito de escolher seu presidente. O país observava fascinado o duelo entre Fernando Collor de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva. Enquanto isso, outras figuras políticas tentavam apresentar projetos mais amplos de nação, como Leonel Brizola, cuja experiência administrativa e visão estratégica encontravam dificuldades para competir com a velocidade da comunicação televisiva.
Mas talvez a figura mais simbólica daquele processo tenha sido a de Enéas Carneiro. Com seu discurso técnico, sua formação intelectual e sua maneira incomum de se comunicar, foi frequentemente transformado em caricatura. O homem que falava de geopolítica, energia, desenvolvimento científico e soberania nacional tornou-se personagem de humor. Não porque suas ideias fossem necessariamente aceitas ou corretas em todos os aspectos, mas porque a linguagem da profundidade raramente encontra espaço em tempos dominados pela superficialidade.
Os estoicos ensinavam que a multidão não é um tribunal da verdade. O aplauso não transforma erro em acerto, nem a vaia transforma sabedoria em loucura. A história está repleta de homens ridicularizados em seu tempo e admirados pelas gerações seguintes. Também está repleta de celebridades de ocasião que desapareceram junto com os holofotes que as iluminaram.
Talvez a grande ironia daquela eleição possa ser resumida em uma frase: transformaram o gênio em palhaço e os palhaços em gênios.
Mas o estoico faria uma ressalva. Não porque soubesse quem era o gênio ou quem era o palhaço, mas porque compreenderia que as multidões frequentemente invertem essas posições. O espetáculo tem a capacidade de coroar o superficial e ridicularizar o profundo. O homem que diverte é confundido com o sábio; o homem que pensa é confundido com o estranho.
A verdadeira questão, portanto, não está em saber quem venceu aquela eleição. A pergunta filosófica é outra: quantas vezes uma sociedade escolhe a imagem em vez da essência? Quantas vezes confunde popularidade com competência, eloquência com sabedoria e fama com virtude?
Os estoicos responderiam que isso acontece desde o início da civilização. E continuará acontecendo. Porque a multidão busca aquilo que agrada aos olhos, enquanto a razão busca aquilo que resiste ao tempo.
As urnas elegem governantes. O tempo, porém, é quem julga os homens.

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