Vivemos uma época marcada pela expansão dos diagnósticos, pela especialização do conhecimento e pela crença de que toda dificuldade humana pode ser corrigida mediante intervenções técnicas. Entre os fenômenos mais evidentes desse tempo está o aumento dos diagnósticos de transtornos do neurodesenvolvimento, especialmente do autismo. Não cabe aqui discutir a validade desses diagnósticos nem a importância das terapias que frequentemente os acompanham. A questão é outra, mais antiga e talvez mais filosófica: existe um limite para o cuidado?
Muitas crianças passam boa parte de suas semanas entre consultas, avaliações e terapias. Fonoaudiologia, psicologia, musicoterapia, terapia ocupacional, acompanhamento nutricional, reforço pedagógico e uma extensa agenda de atividades ocupam o cotidiano infantil. A intenção é nobre: ampliar capacidades, desenvolver habilidades e oferecer melhores condições de vida. Entretanto, raramente se pergunta qual é o custo existencial dessa agenda.
A filosofia grega possuía uma palavra curiosa para aquilo que hoje chamamos de tempo livre: scholé. Dela surgiu a palavra “escola”. Para os gregos, o verdadeiro aprendizado não nascia da ocupação constante, mas da possibilidade de contemplar, observar, experimentar e simplesmente existir sem finalidade imediata. O ócio não era visto como desperdício, mas como condição fundamental para a formação humana.
Séculos depois, filósofos como Aristóteles sustentariam que a vida boa não consiste em uma atividade incessante, mas na justa medida entre ação e repouso. O ser humano não floresce apenas quando produz; floresce também quando contempla.
A infância sempre foi, em certa medida, o território privilegiado dessa contemplação. Brincar sem objetivo, caminhar sem destino, inventar mundos imaginários e observar as nuvens foram atividades que moldaram gerações inteiras. Contudo, a sociedade contemporânea parece desconfiar do vazio. Cada hora deve ser preenchida. Cada comportamento deve ser avaliado. Cada dificuldade deve ser corrigida. A criança torna-se um projeto permanente de aperfeiçoamento.
Não se trata de negar os benefícios das terapias. Muitas delas transformam vidas e oferecem recursos fundamentais para crianças e famílias. A questão é se estamos medindo com o mesmo rigor aquilo que não aparece nos relatórios clínicos: a fadiga emocional, o cansaço físico, a sobrecarga cognitiva e a possível perda da espontaneidade.
Uma criança que passa o dia inteiro sendo observada, estimulada, avaliada e corrigida ainda encontra espaço para simplesmente ser criança? Existe algum instrumento capaz de medir a ausência do brincar livre? Há algum protocolo que quantifique o valor de uma tarde sem objetivos?
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han argumenta que a sociedade contemporânea produz indivíduos exaustos não pela opressão, mas pelo excesso de estímulos e exigências. Embora escrevesse sobre adultos, sua reflexão permite uma pergunta inquietante: estaríamos construindo uma infância da performance terapêutica?
Talvez a grande questão não seja quantas terapias uma criança consegue frequentar, mas quanto espaço permanece disponível para a experiência livre da infância. Afinal, nem tudo aquilo que possui valor pode ser mensurado. Nem todo desenvolvimento ocorre sob observação profissional. E talvez algumas das capacidades mais importantes da vida, imaginação, autonomia, criatividade e autoconhecimento, necessitem precisamente daquilo que o mundo moderno menos tolera: o tempo sem finalidade.
Entre o abandono e a superintervenção existe um território esquecido. Esse território chama-se ócio. Não o ócio da negligência, mas o ócio criativo; não a ausência de cuidado, mas a presença do tempo. E talvez uma das tarefas filosóficas de nosso século seja recordar que o ser humano não se forma apenas através daquilo que lhe ensinamos, mas também através dos momentos em que permitimos que descubra o mundo por si mesmo.
Absurdamente necessário essa conscientização. Parabéns 👏🏻👏🏻👏🏻 “ O ser humano não floresce apenas quando produz; floresce também quando contempla.”
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