Dizem que há algo de estranho naquele que não se emociona com o futebol. A multidão grita, canta, sofre e celebra; ele observa em silêncio. Enquanto milhares encontram sentido em noventa minutos de jogo, ele busca significado em livros, ideias e longas reflexões sobre a condição humana.
Mas o estoico perguntaria: estranho para quem?
A natureza não distribuiu os mesmos interesses aos homens. Alguns encontram beleza no estádio iluminado; outros, numa biblioteca silenciosa. Alguns são movidos pela paixão da disputa; outros, pela contemplação das causas e consequências das coisas. Nenhum dos dois está errado. Errado é acreditar que a felicidade possui uma única forma.
O futebol, como tantas outras paixões humanas, é um símbolo. A bola é apenas uma bola. O campo é apenas um campo. O que move os homens não é o objeto, mas o significado que depositam nele. O torcedor não celebra um gol; celebra pertencimento. Não veste uma camisa; veste uma identidade. Não acompanha um campeonato; acompanha uma narrativa na qual escolheu acreditar.
E não fazemos todos o mesmo?
O filósofo deposita significado em suas ideias. O poeta em suas palavras. O político em suas causas. O empresário em seus números. O amante em suas promessas. O homem é um animal que fabrica significados para suportar a brevidade da existência.
Por isso, não compreender o futebol não é um problema. O problema seria não compreender nada. Seria atravessar a vida sem uma paixão digna, sem um propósito, sem algo que justificasse o despertar de cada manhã.
Os antigos estoicos ensinavam que devemos viver de acordo com nossa natureza. Se sua natureza não encontra entusiasmo nos estádios, não force entusiasmo. A aprovação da multidão nunca foi um critério confiável para a verdade. O sábio não pergunta o que encanta a maioria; pergunta o que fortalece sua alma.
Talvez você observe uma final de campeonato e não sinta absolutamente nada. E está tudo bem. O importante é descobrir aquilo que produz em você o mesmo efeito que o futebol produz em milhões de pessoas: aquele raro instante em que o tempo desaparece, as preocupações silenciam e a existência parece possuir algum sentido.
Porque, no fundo, a questão nunca foi o futebol.
A questão é que todos os homens procuram uma razão para continuar caminhando.
Uns a encontram em uma arquibancada.
Outros a encontram em uma página.
E ambos estão apenas tentando responder à mesma pergunta que acompanha a humanidade desde o princípio: como viver uma vida que valha a pena ser vivida?
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