Durante três anos vivi no meio do nada.
Não era uma metáfora. Não era um retiro de fim de semana vendido como experiência espiritual. Era o silêncio verdadeiro. A ausência de internet. A distância das urgências artificiais. A economia dos recursos. O contato diário com os limites concretos da existência.
Enquanto o mundo discutia tendências, algoritmos e escândalos passageiros, eu aprendia algo mais antigo: como sobreviver.
Na região da Serra da Piedade, descobri que muitas das necessidades que julgamos indispensáveis são apenas hábitos. O homem moderno vive cercado por excessos e, ainda assim, sente-se permanentemente carente. O isolamento me ensinou o contrário: quanto menos eu possuía, menos coisas podiam me possuir.
Foi ali que compreendi uma verdade que os estoicos já conheciam há dois mil anos. A riqueza não está em acumular bens, mas em reduzir dependências.
Ao recordar esse período, não consigo evitar a imagem de Zaratustra descendo da montanha.
Não porque eu tenha encontrado revelações extraordinárias. Não porque tenha regressado como profeta. Mas porque a montanha produz um fenômeno raro: ela remove o ruído.
Na solidão, as opiniões dos outros perdem importância. Os aplausos desaparecem. As disputas por status tornam-se ridículas. O homem deixa de ser aquilo que os outros esperam dele e passa a confrontar aquilo que realmente é.
Esse encontro nem sempre é agradável.
Há dias em que a solidão parece liberdade.
Há dias em que parece abandono.
Há noites em que o silêncio produz paz.
Há noites em que revela vazios que a agitação da cidade escondia.
Zaratustra também enfrentou isso. Sua montanha não era apenas um lugar geográfico. Era um processo de separação. Um afastamento necessário para que as vozes externas diminuíssem e a voz interior pudesse finalmente ser ouvida.
A Serra da Piedade cumpriu papel semelhante em minha vida.
Ali escrevi poemas que talvez jamais escrevesse em meio ao barulho cotidiano. Ali aprendi que a escassez pode ser uma professora severa, mas honesta. Ali percebi que a natureza não negocia com ilusões e que o nascer do sol continua acontecendo independentemente de nossas angústias.
O homem contemporâneo acredita que liberdade é ter acesso a tudo.
Mas existe outra liberdade.
A liberdade de precisar de pouco.
A liberdade de suportar o desconforto.
A liberdade de permanecer sozinho sem ser devorado pela própria companhia.
Foi essa liberdade que encontrei entre montanhas, estradas vazias e dias silenciosos.
Quando Zaratustra desce da montanha, ele retorna para os homens. Não porque tenha passado a desprezar a solidão, mas porque compreende que a sabedoria não foi feita para permanecer escondida.
Toda montanha é temporária.
Todo retiro é provisório.
Chega um momento em que o homem deve retornar ao mundo e colocar à prova aquilo que aprendeu quando estava sozinho.
O verdadeiro teste do estoicismo não acontece na tranquilidade da montanha.
Acontece no mercado.
No amor.
Na política.
Nos conflitos.
Nas perdas.
Nas reconciliações.
A montanha ensina.
Mas é a vida que examina.
E talvez a maior lição daqueles três anos não tenha sido aprender a viver isolado.
Talvez tenha sido descobrir que, depois de aprender a caminhar sozinho, já não se teme tanto caminhar entre os outros.
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