Os estóicos antigos observavam os homens pela firmeza de caráter. Hoje, bastaria observar o feed.
Surgiu um novo fenótipo humano. Não nasceu da evolução, mas da edição de imagem. Seus dentes são de porcelana, seus rostos de filtro e suas opiniões de aluguel. Nunca uma geração investiu tanto na arquitetura da face e tão pouco na construção da alma.
Os olhos permanecem fixos na tela, não por contemplação filosófica, mas pela ansiedade de descobrir quantos desconhecidos aprovaram a fotografia do almoço. O corpo tornou-se um outdoor ambulante de procedimentos estéticos; a mente, entretanto, permanece um terreno baldio onde nenhuma ideia ousa florescer.
Os amores também acompanharam a tendência. São rasos como uma poça d’água após a chuva. Duram menos que a bateria do celular e terminam ao primeiro sinal de desconforto. Ninguém quer construir uma ponte; todos procuram uma porta de emergência.
Fala-se muito em conexão, mas raramente em vínculo. Multiplicaram-se os contatos, extinguiram-se os encontros. O indivíduo moderno conhece a rotina de quinhentas pessoas e ignora a própria consciência.
A atividade intelectual, outrora sinal de refinamento humano, passou a ser encarada como excentricidade. Livros perderam espaço para vídeos de quinze segundos. O raciocínio foi substituído pela reação. O argumento cedeu lugar ao meme. A dúvida, mãe da sabedoria, foi assassinada pela certeza instantânea dos algoritmos.
Marco Aurélio governou um império escrevendo reflexões sobre virtude. O cidadão contemporâneo governa um perfil e mal consegue escrever um parágrafo sem consultar a inteligência artificial ou copiar frases de autoajuda produzidas por alguém igualmente perdido.
Não há nada de errado em possuir dentes perfeitos. O problema começa quando eles se tornam mais elaborados que os pensamentos que saem por entre eles.
O estóico compreenderia que o corpo envelhece, a beleza oscila e a aprovação pública evapora. O que permanece é a substância moral do indivíduo. Porém, numa época em que a embalagem vale mais que o conteúdo, muitos terminam a vida com uma vitrine impecável e um estoque completamente vazio.
Talvez o verdadeiro rebelde do século XXI não seja quem exibe luxo, músculos ou porcelanas dentárias. Talvez seja aquele que ainda lê, pensa, contempla e ama profundamente em uma civilização treinada para sentir superficialmente.
Eis a tragédia do novo fenótipo humano: nunca esteve tão bem fotografado e tão mal compreendido por si mesmo.
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