Sob o prisma da ciência política contemporânea, o fascismo não se define apenas por estética militar ou símbolos do século XX, mas por práticas autoritárias, culto à personalidade, intolerância à oposição e aparelhamento das instituições democráticas. Nesse contexto, tanto Lula quanto Bolsonaro apresentam traços que os aproximam dessa definição.
Lula, ao flertar e defender abertamente os regimes de Fidel e Raúl Castro, em Cuba, de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, na Venezuela, e o Partido Comunista da China todos conhecidos pela repressão à liberdade de expressão e pela perseguição a opositores demonstra simpatia por modelos totalitários de esquerda.
Bolsonaro, por sua vez, sempre exaltou a ditadura militar brasileira e seus torturadores. Durante a Presidência, aproximou-se do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, que há mais de uma década vem acumulando poderes por meio de uma guinada autoritária sobre o Judiciário, o Legislativo e a imprensa.
Embora provenientes de espectros políticos opostos, ambos utilizam estratégias populistas, polarizadoras e autoritárias que, segundo critérios da ciência política, os aproximam perigosamente da lógica fascista.
Desde seus primórdios na Grécia Antiga, a democracia tem passado por um longo processo de amadurecimento e transformação. O ideal da participação cidadã, do debate público e da alternância de poder sobreviveu a impérios, monarquias absolutistas, revoluções e guerras mundiais, até consolidar-se como o sistema político mais desejado (ainda que imperfeito) do mundo contemporâneo.
Com o tempo, as experiências democráticas modernas permitiram uma importante distinção entre três grandes correntes políticas possíveis em regimes pluralistas: a direita democrática, a esquerda democrática e o fascismo, este último como a antítese da democracia, mesmo quando se disfarça sob roupagens institucionais.
No Brasil, entretanto, a consolidação dessas correntes ainda é frágil. A chamada direita democrática, aquela que defende valores liberais, Estado de Direito, economia de mercado com responsabilidade social e respeito às instituições, praticamente não se expressa no sistema partidário vigente. O que temos é, de um lado, uma extrema direita populista e autoritária, marcada por falas que flertam com a ruptura institucional, e de outro, uma esquerda dividida entre projetos democráticos e setores que ainda mantêm simpatia por regimes totalitários.
Curiosamente, o campo que mais se aproxima hoje de uma esquerda moderna e democrática no Brasil é representado por partidos como o PSDB e o PSB. Ambos são herdeiros de uma tradição social-democrata que busca conciliar justiça social com estabilidade econômica, liberdade com responsabilidade, inclusão com respeito às regras do jogo democrático. São partidos que, historicamente, não defenderam regimes autoritários, sejam eles de esquerda ou de direita e buscaram o diálogo institucional, a mediação e a construção de consensos.
Diante disso, a esperança por uma direita democrática, que una compromisso com as liberdades individuais, austeridade fiscal, combate firme ao crime e à corrupção, parece surgir timidamente em projetos como o do recém-fundado Partido Missão. Trata-se de uma legenda ainda em formação, mas que se apresenta como liberal, reformista e explicitamente desvinculada do bolsonarismo e de suas práticas populistas e antirrepublicanas.
O Brasil precisa urgentemente de um novo pacto democrático, com atores políticos que rejeitem o fascismo seja em sua versão vermelha ou verde-oliva, e assumam a política como exercício do bem comum, da divergência respeitosa e da construção coletiva. O futuro da democracia brasileira não depende apenas do voto popular, mas da maturidade política de seus representantes e da capacidade de sua sociedade civil em diferenciar lideranças autoritárias de projetos realmente democráticos.
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