O populismo é uma patologia antiga da política, mas continua atual — principalmente no ambiente legislativo. Ele se disfarça de benevolência, mas é, na verdade, um mecanismo de autopromoção e manutenção de poder. Trata-se de uma forma de atuação política que não resolve estruturalmente os problemas sociais, apenas os administra sob medida para garantir capital eleitoral. É, portanto, uma doença infantil do Legislativo, na qual a vaidade do “salvador da pátria” substitui a maturidade institucional.
Nos últimos anos, presenciamos o crescimento de práticas populistas nos parlamentos municipais e estaduais. Muitos vereadores e deputados, em vez de cumprirem com o papel constitucional de legislar e fiscalizar, se transformaram em gestores informais de demandas individuais — ou pior, em donos de pequenos feudos filantrópicos. Multiplicam-se clínicas comunitárias, associações “de bairro” e projetos assistenciais, todos com o mesmo DNA: a promoção da figura do parlamentar como benfeitor.
Essas ações, embora travestidas de ajuda social, não são políticas públicas. São instrumentos de dominação eleitoral. Muitas dessas “instituições” são, na verdade, estruturas de campanha disfarçadas de ONG. Prestam serviços que deveriam ser garantidos pelo Estado — saúde, transporte, alimentos, exames — e, ao fazerem isso, enfraquecem o papel do Legislativo enquanto poder autônomo e fiscalizador.
O parlamentar populista se alimenta da deficiência do Estado. Ele não quer que o posto de saúde funcione bem, pois isso enfraqueceria seu papel de “intermediador”. Ao invés de propor melhorias no orçamento da saúde, pressionar por mais médicos ou denunciar a falta de medicamentos, ele “resolve por fora”. Mas cobra isso em votos.
Essa postura gera uma série de efeitos colaterais gravíssimos:
- Redução da atividade legislativa real;
- Produção quase nula de leis relevantes e bem fundamentadas;
- Participação simbólica em comissões técnicas;
- Afastamento dos debates estruturantes da cidade;
- Conluio com o Executivo em troca de cargos e favores;
- Apatia diante de escândalos, contratos suspeitos e má gestão.
O custo social dessa prática é altíssimo. Ao invés de fortalecer instituições, o populismo as contorna. Ao invés de promover políticas públicas sustentáveis, improvisa soluções temporárias e personalistas. E, o mais grave: ao invés de educar o eleitor, o adestra com favores.
É por isso que precisamos urgentemente repensar o papel do Legislativo. O parlamento deve ser uma arena de ideias, de fiscalização firme, de proposições inteligentes, de defesa dos interesses públicos — e não uma extensão informal do gabinete do prefeito ou uma ONG de votos.
Os municípios não podem mais ser governados com base em “caridade eleitoral”. Precisam de legisladores preparados, técnicos, com visão de futuro e compromisso institucional. A política local precisa de uma virada de chave: sair da lógica clientelista e avançar para uma cultura de produtividade política, planejamento estratégico e responsabilidade pública.
O populismo pode garantir votos, mas não garante progresso. Pode gerar aplausos no curto prazo, mas condena o povo à estagnação no longo prazo. E o Legislativo não pode se dar ao luxo de ser infantil. Precisa amadurecer — e rápido.
Porque onde o populismo cresce, a democracia adoece.
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