Vinte anos de didática militar, sim, didática, porque ensinaram direitinho, cujo diploma foi hiperinflação, ruptura institucional, estatização seletiva, imprensa amordaçada e corrupção em escala industrial. Um curso intensivo de “como não governar”, ministrado a ferro, censura e porões. Terminada a aula, veio a formatura democrática: eleições pós-ditadura, anistia ampla, geral e irrestrita. Ampla para militares fascínoras, restrita a meia dúzia de guerrilheiros arrependidos, alguns idealistas, outros reciclados em burocratas profissionais.
As ruas gritavam “Diretas Já!”, mas o país, sempre criativo em errar, elegeu um caudilho saído das mesmas famílias oligárquicas do Nordeste, aquelas que atravessam Império, República Velha, ditadura e democracia como quem atravessa a sala de estar. Impeachment! Cai Collor, sobe Itamar. Um engenheiro improvisado, quase um acidente histórico, que ironia das ironias, organiza a casa. Monta equipe, segura a máquina pública, prepara o terreno. Nasce o Plano Real, surge FHC, e o Brasil é lançado, sem manual de instruções, na modernidade neoliberal.
FHC, goste-se ou não, deixa legado: agências reguladoras, políticas de longo prazo, Lei de Responsabilidade Fiscal, diretrizes orçamentárias. Instituições: esse palavrão pouco popular. Mas o centro político, esse organismo gelatinoso, continua faminto. Desde a monarquia, vive de sugar o Estado: mensalões embrionários, emendas negociadas em guardanapos, cargos, favores, silêncio comprado. O grande centro não governa; administra saques.
Então surge o PT, apresentado como antídoto tardio a 20 anos de ditadura. Um remédio que, tomado em excesso e misturado com oligarquias, produziu efeitos colaterais severos: cooptação geral, corrupção sistêmica e uma crise institucional profunda. As ruas voltam a ferver: MBL, black blocs, indignação difusa, panelaços. Cai a sucessora de Lula. O palco está pronto.
Entra em cena a falsa direita liberal, com Bolsonaro como pivô. Afinal, eleição não se ganha por mérito, mas por oportunidade. Ele estava lá: no lugar certo, na hora certa, com o discurso certo. Antissistema, anticorrupção, antipolítica, tudo isso vindo de quem viveu décadas da política e do sistema. Um milagre retórico.
O discurso, claro, não colou. Sérgio Moro sai, a Lava Jato morre, o Coaf é remexido, a Polícia Federal domesticada. O cheiro de enxofre toma o ambiente. Ainda assim, é preciso reconhecer: por motivos nada republicanos, proteger os filhos, Bolsonaro tentou enfrentar o sistema. O sistema, experiente, respondeu como sempre: com vingança fria. Tira Lula da cadeia de forma “inescrupulosa” e o devolve ao trono pelo voto. O ciclo se fecha. A cobra morde o próprio rabo, e o público aplaude.
E o Brasil? O Brasil é forte. Sobrevive a tudo isso e continua de pé, não por virtude, mas por inércia. Um país onde quase 70% das pessoas não conseguem compreender um texto como este. Onde políticos flagrados em associações espúrias são venerados como messias. Onde cofres públicos são saqueados via emendas, manobras e fundos bilionários com verniz legal. Onde mais de 50% da população é, na prática, incapaz de votar, porque ainda vende o voto, a consciência e o futuro por migalhas.
O Brasil não está sem rumo. O rumo é esse mesmo. E seguimos, orgulhosamente perdidos.
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