Muito antes das lives conspiratórias, dos gurus de WhatsApp e das teorias mirabolantes que associam refrigerantes a fetos abortados, Machado de Assis já havia nos presenteado com um personagem que parece ter previsto tudo isso: Quincas Borba. O filósofo delirante do realismo fantástico machadiano é a caricatura perfeita de um pensador que, com aparência de erudição, vende ideias absurdas como se fossem verdades absolutas.
Quincas Borba criou o Humanitismo, uma doutrina confusa, tautológica e autorreferente, recheada de frases de efeito que impressionam os desavisados, mas que, ao olhar mais atento, não passam de um amontoado de bobagens travestidas de filosofia. É impossível não traçar um paralelo com o estilo e o impacto do ex-astrólogo e autodeclarado filósofo Olavo de Carvalho, que popularizou um discurso igualmente caótico, agressivo e recheado de absurdos como a célebre afirmação de que a Pepsi utilizava células de fetos abortados em sua fórmula.
Ambos , Quincas e Olavo, partilham uma coisa essencial: a capacidade de construir seguidores, não a partir de razão, mas de retórica, choque e manipulação emocional. O primeiro convence Brás Cubas, um homem vaidoso e entediado; o segundo encantou parte da elite política e militar brasileira em pleno século XXI.
Machado de Assis, com sua genialidade cética, parece ter deixado um aviso eterno: onde há vaidade, ignorância e desejo de poder, sempre haverá espaço para um guru do absurdo. Resta saber quem será o próximo Quincas Borba da nossa história. E quem, como Brás Cubas, vai embarcar nesse delírio.
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