Quando os juros estão nas alturas, o governo sempre encontra um culpado conveniente. Nunca é o gasto público. Nunca é a falta de prioridade. Nunca é a irresponsabilidade fiscal travestida de sensibilidade social. Deve ser algum complô abstrato chamado mercado.
Mas a economia insiste em ser inconveniente. Juros altos significam algo simples e pouco ideológico. O governo está gastando demais e gastando mal. Não existe mágica. Quando o Estado consome recursos sem gerar produtividade, o dinheiro encarece. A conta chega.
E o destino desse dinheiro ajuda a explicar tudo. Uma parte relevante do orçamento público virou refém das emendas parlamentares. Um instrumento que deveria ser exceção virou regra. Deputados e vereadores passaram a administrar fatias do orçamento como se fossem cofres eleitorais pessoais.
O resultado é conhecido. Ambulâncias que não circulam. Máquinas que não funcionam. Pracinhas inauguradas com placa maior que a obra. Quinquilharia pública comprada às pressas apenas para justificar repasse e garantir voto. Tudo fragmentado, pulverizado, irrelevante do ponto de vista do desenvolvimento nacional, mas extremamente eficiente do ponto de vista eleitoral.
O orçamento virou um quebra-cabeça impossível. Picado em milhares de pedaços, ele impede qualquer planejamento de longo prazo. País nenhum se desenvolve investindo apenas em obras pequenas e dispersas. Infraestrutura de verdade exige escala, continuidade e visão estratégica.
Energia é cara porque não investimos como deveríamos. Rodovias vivem saturadas porque não ampliamos capacidade no ritmo certo. Portos perdem competitividade porque faltam investimentos pesados. Ferrovias seguem sendo promessa porque não cabem no orçamento fatiado da política miúda.
Você já ouviu falar na via transoceânica? Geografia também é destino. Os Estados Unidos se tornaram uma potência porque são, na prática, um país bioceânico. Atlântico e Pacífico conectados por corredores logísticos eficientes, com trens cruzando o território de costa a costa. Isso reduz custo, aumenta produtividade e atrai investimentos.
No Brasil, uma rodovia fundamental como a dos Imigrantes levou anos para ser concluída. Obra cara, complexa e estratégica. Exatamente o tipo de investimento que transforma um país. Mas esse tipo de obra não rende selfie em ano eleitoral, nem placa com nome de parlamentar.
Enquanto isso, seguimos gastando bilhões em emendas para sustentar a engrenagem política. Depois fingimos surpresa com juros altos, crescimento baixo e infraestrutura precária. Como se fosse azar histórico.
O Brasil não precisa de mais dinheiro. Precisa de menos politicagem. O fim das emendas parlamentares em todas as esferas não é radicalismo. É condição mínima para que o orçamento volte a servir ao desenvolvimento, e não à reeleição permanente.
Chega.
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