Como um geólogo iraquiano ajudou a transformar a Noruega e porque outros países naufragaram no petróleo
Quando Farouk Abdul Aziz Al-Kasim deixou Basra, no Iraque, em 1968, ele carregava na bagagem algo que não era visível a olho nu: a experiência de quem cresceu em um país dominado pela economia do petróleo. Ao chegar à Noruega, o geólogo então com carreira consolidada no setor petrolífero iraquiano encontrou um cenário promissor, mas ainda sem regras claras para administrar o que viria a ser uma das maiores riquezas da Europa.
No Iraque, país de grandes reservas que viu seu Estado afundar em décadas de instabilidade e guerras, Farouk testemunhara os efeitos perversos da dependência de um recurso que concentrava renda e poder, deixando para trás infraestrutura pública, educação e estabilidade política. Ao sair do país em plena Guerra Fria em busca de tratamento médico para um filho, Al-Kasim embarcou rumo a um destino inesperado: desenhar o arcabouço institucional que transformaria o petróleo norueguês em um patrimônio coletivo.
Na Noruega, suas recomendações ajudaram o governo a criar instituições fortes, regras claras de exploração e um planejamento cauteloso que colocaram o interesse público no centro das decisões sobre petróleo. Esse modelo culminou em décadas depois com a criação do Fundo de Pensões do Governo o maior fundo soberano do mundo, capitalizado com receitas da exploração de hidrocarbonetos e hoje valendo mais de US$ 1,7 trilhão, investido globalmente para garantir o bem-estar das gerações atuais e futuras.
Enquanto isso, em Caracas, a Venezuela vive um roteiro contrastante. Dono de reservas gigantescas, o país ampliou nas últimas décadas sua dependência do petróleo como base do orçamento estatal. Políticas que colocaram o setor no centro da economia e priorizaram o gasto imediato das receitas, sem reservas robustas para tempos de vacas magras, e, deixaram a economia vulnerável a choques externos e à queda dos preços do petróleo no mercado internacional. A consequência foi uma profunda crise econômica, com queda da produção e escassez de bens essenciais, em um país que já foi símbolo do boom petrolífero regional.
A diferença entre os dois modelos foi, em muitos aspectos, institucional. Enquanto a Noruega protegeu seu futuro ao travar gastos imediatos e concentrar boa parte dos lucros em um fundo soberano, a Venezuela ampliou sua dependência do petróleo para financiar gastos correntes e programas estatais sem criar mecanismos contra choques de preços.
Esses contrastes não são apenas teóricos. No Brasil, municípios como Presidente Kennedy (ES) e Campos dos Goytacazes (RJ), que recebem algumas das maiores receitas de royalties do petróleo per capita do país, mostram que receber dinheiro do petróleo não garante automaticamente desenvolvimento humano ou qualidade de vida. Apesar de cifras volumosas, Presidente Kennedy recebeu cerca de R$ 390 mil por habitante entre 1999 e 2024 em royalties, a falta de investimentos consistentes em serviços públicos essenciais mantém níveis preocupantes de pobreza e infraestrutura insuficiente.
O caso das cidades brasileiras evidencia um dilema comum: sem um projeto de longo prazo que coloque o bem-estar coletivo e a diversificação econômica no centro, os recursos do petróleo podem impulsionar cifras astronômicas nas contas públicas e, ainda assim, deixar a população à margem do desenvolvimento real.
No fim, a história de Farouk Al-Kasim e do modelo norueguês é mais do que uma lição técnica sobre gestão de recursos naturais. É um lembrete de que instituições sólidas, visão de longo prazo e mecanismos que preservem riqueza para além de um ciclo de preços altos são essenciais, especialmente em um mundo em que a dependência de um único produto pode ser tão poderosa quanto traiçoeira.
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