Quando se entra no plenário municipal, seja num município médio ou numa metrópole, o espetáculo costuma repetir‑se como um velho vinil arranhado. De um lado, o populismo de esquerda ergue panfletários e estandartes de vítimas históricas. Do outro, o populismo de direita monta púlpitos midiáticos e cultua o “cidadão de bem”. Em comum, ambos prestam um desserviço à cidade real: empregos escassos, legislação sufocante, parque tecnológico inativo e o Município desesperado por recursos.
No palco da esquerda, temos discursos inflamados sobre orientações sexuais, gays, cidadania e hormônios. Temas que rendem manchetes, likes, selfies, mas pouco impactam o índice de geração de empregos ou reduzem a burocracia que impede uma fábrica de implantar-se no município.
Na tribuna da direita, o espetáculo se entrega à retórica do “combate à ideologia de gênero”, hinos de “família tradicional” e glórias do “cidadão de bem”. Enquanto o deputado ou vereador invade o tempo com provocações sobre gays ou minorias, a cidade escasseia na lei da liberdade econômica, aquela que abriria caminhos reais às empresas, às indústrias, às novas tecnologias.
A cidade se prende a debates identitários não avança. Precisamos de leis que retirem amarras: desburocratização, incentivos a startups, licenciamento rápido, zoneamento inteligente. Esses deveriam ocupar os holofotes. Mas não: os holofotes preferem colar‑se aos microfones de caminhadas populistas.
Você já participou de transmissão ao vivo de sessão municipal? Já viu como uma homenagem interminável a Alexandre de Moraes (pela esquerda) ou a Nikolas Ferreira e Malafaia (pela direita) ocupa mais tempo que o debate sobre um empréstimo de milhões solicitado pelo executivo com anuência da Câmara?
Enquanto isso, o governo contrata empréstimos fantasiosos, prevê orçamento como se fosse carnaval, e pouca auditoria se faz. O plenário se faz palco de “festivais” de aplausos e discursos, e não de debates sobre licença ambiental, atração de indústria ou integração universidade‑empresa.
E há mais: o vereador que estabeleceu clínicas “com fins sociais”, associações “de bairro”, que promete carros adaptados e refeições gratuitas. Assistencialismo eleitoral puro. Ele não legisla. Ele administra favores. Nomeia amigos no Executivo, participa de comissões “faz‑de‑conta”, protocola projetos que dormem na gaveta, mas vai bem no circuito de selfies, visitas às comunidades e “resolução de problemas” pontuais. A cidade, contudo, não cresce.
É HORA DE UM SALTO DE VERDADE
A alternância entre direita e esquerda discursiva não mudou nada. A pobreza das narrativas é visível: esquerda contra direita, identidade contra “ideologia de gênero”, micro‑causas contra macro‑estruturas. E o que sobra? A recusa em aprovar uma lei municipal de liberdade econômica, o atraso tecnológico, a dependência de incentivos estaduais ou federais, o parque tecnológico que não sai do papel.
Cidadão, experimente perguntar ao seu vereador ou deputado:
– Por que não aprovou a lei de liberdade econômica?
– Onde estão os estudos para atrair empresas de tecnologia?
– Qual foi o valor do empréstimo aprovado e qual a contrapartida real para emprego?
Se a resposta for mais sobre “proibir”, “combater” ou “celebrar ideologia”, ao invés de “liberar, atrair, produzir”, você entende que está diante de espetáculo e não de política real.
O populismo de esquerda e o populismo de direita são duas faces do mesmo teatro: a política‑show. A cidade precisa de política‑plano.
Não de painel de selfies, nem de discurso contra ou a favor de gays, nem de homenagens solenes que duram mais que o tempo de tramitação de um projeto de lei.
Se queremos desenvolvimento, empregos, inovação, alunos que trabalham em empresas locais, liberdade de empreender, precisamos derrubar esse palco de caricaturas e construir uma tribuna de ação.
Porque o debate imoral entre esquerda e direita perpetua o espetáculo e sabota o progresso.
E, no fim, a cidade que poderia voar continua andando de bicicleta.
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