E eis que, nos dias atuais, levantou-se entre o povo uma palavra acusatória, lançada com a leveza de uma pedra e o peso de uma sentença: “Fascista!”.
E muitos a pronunciam sem medir, e poucos a compreendem.
E perguntaram-me: “Quando és fascista?”
E eu respondi por parábolas, como convém aos tempos confusos.
Sou fascista, dizem, quando voto em partido que, em suas escrituras e alianças, louva regimes autoritários. Quando fecha os olhos para Cuba, terra de silêncios longos. Quando justifica a Venezuela, onde o pão mingua e a liberdade é racionada.
Sou fascista quando aplaudo governos onde o Estado tudo vê, tudo controla e tudo decide, menos o destino de seu povo.
Mas também sou fascista, vejam só, quando defendo intervenção militar. Quando pronuncio a palavra “ordem” sem pedir desculpas. Quando ouso confiar em generais como quem confia que o caos não é virtude em si mesmo.
Sou fascista quando temo a anarquia e não a romantizo.
E assim, em um só corpo, sou acusado por pecados opostos.
Pois se clamo contra o totalitarismo de esquerda, sou reacionário.
E se critico o autoritarismo de direita, sou traidor da ordem.
E no meio do caminho, jaz a razão, ferida, como o homem da parábola, ignorada pelos sacerdotes do debate raso.
Porque o sonho, ah, o sonho! Não deveria ser o do Estado opressor nem o do mercado sem alma. O sonho seria duas correntes democráticas: à esquerda a social-democracia, que proteja sem sufocar, que regule sem dominar, que governe sem vigiar pensamentos.
Uma esquerda que ame o povo, mas tenha ojeriza a regimes totalitários. E à direita uma corrente liberal que ame a liberdade, mas não flerte com extremismos como quem brinca com fogo achando-se imune às chamas.
Mas ai! Nos tempos atuais, os extremos se beijam e se alimentam. Um justifica o outro. Um radicaliza para que o outro sobreviva.
E assim, quem recusa os dois altares é lançado ao deserto da incompreensão.
Chamado de isento por não gritar.
E concluo dizendo:
Bem-aventurados os que pensam, porque deles será o fardo da solidão.
Bem-aventurados os que rejeitam tiranos de todos os lados, porque não terão rótulos, apenas consciência.
E quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça.
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