Nas eleições passadas, concorri a uma vaga na Câmara Municipal com um princípio que sigo com convicção: não usar dinheiro público para campanha. Fiz uma campanha enxuta, limpa e propositiva. Os resultados, no entanto, escancararam uma realidade incômoda: o fundo eleitoral, embora legal, altera de forma concreta a competitividade entre candidaturas.
Para ilustrar isso, comparei meu desempenho com o de três candidatos eleitos — um de esquerda, um de direita e um da minha própria região (Zona Norte). Todos receberam recursos expressivos de seus partidos. Veja os dados:
- Cido Reis (PCdoB)
Recebeu R$310 mil. Gastou R$ 328 mil. Obteve 5.512 votos.
Custo por voto: R$59,65 - Letícia Delgado (PT)
Recebeu R$ 83 mil do partido. Gastou R$152 mil. Obteve 3.770 votos.
Custo por voto: R$40,36
(Letícia, vale lembrar, é sobrinha do ex-deputado Paulo Delgado.) - Roberta Lopes (PL)
Recebeu R$130 mil. Gastou R$ 142 mil. Obteve 7.924 votos.
Custo por voto: R$ 17,98
(Roberta já havia sido candidata, tem forte ligação com o deputado federal Nikolas Ferreira, e hoje é uma das vozes mais influentes da nova direita local).
- Ely Manoel Machado (Novo)
Recusei o fundo eleitoral. Gastei R$ 18 mil com recursos próprios. Obtive 1.697 votos.
Custo por voto: R$10,78 — o menor entre todos.
Uma projeção reveladora
Se minha campanha tivesse acesso à média de recursos dos demais (cerca de R$ 207 mil), mantendo o mesmo desempenho proporcional, teria conquistado cerca de 5.200 votos — número suficiente para inteirar os votos que faltaram a minha legenda e obter uma cadeira.
Mas o ponto aqui não é me vitimizar. É fazer um alerta.
A democracia brasileira, embora formalmente acessível, não oferece igualdade real de condições. O fundo eleitoral concentra poder nas mãos dos partidos, favorece quem já está no sistema e distorce o jogo antes mesmo de começar.
Como competir de igual para igual, quando alguns largam com carro de corrida e outros a pé?
Está na hora de encarar a verdade: ou reformamos profundamente o modelo de financiamento, ou continuaremos a perpetuar um sistema onde o dinheiro — e não a proposta — define quem chega lá.
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