Neste artigo inaugural do Concreto, apresento crítica à concepção das obras no córrego Humaitá no bairro Industrial.
Hoje quero falar sobre um novo modelo de cidade e também sobre um velho problema que Juiz de Fora insiste em repetir.
Recentemente, perdemos o arquiteto chinês Kongjian Yu, mundialmente reconhecido como criador do conceito das “cidades-esponja”, enquanto visitava o Pantanal brasileiro, em um acidente aéreo.
Ele nos deixou um legado simples e poderoso: cidades inteligentes não tentam dominar a água, elas convivem com ela.
Elas absorvem, armazenam e reutilizam a chuva por meio da própria natureza com jardins de chuva, áreas verdes, vias permeáveis, lagos reguladores e várzeas ativas.
E o que isso tem a ver com Juiz de Fora?
Tudo.
Dois bairros da nossa cidade sofrem há anos com alagamentos graves no período das chuvas de verão. Curiosamente, ambos têm nomes parecidos — coincidência? Talvez. Falo do Bairro Industrial e do Distrito Industrial.
Essas regiões deveriam funcionar como esponjas naturais, pois estão em áreas de várzea — historicamente alagáveis. Mas a ocupação urbana e industrial avançou sem planejamento ambiental adequado, selando o solo e destruindo a capacidade natural de absorção da água.
E aqui faço uma afirmação técnica e responsável:
Não concordo com as intervenções recentes da Prefeitura no Bairro Industrial.
A contenção executada ali, embora bem-intencionada, contraria a lógica da geografia e da natureza.
Quando o Rio Paraibuna enche, ele impede a saída das águas do Córrego Humaitá, que é muito menor.
A água fica aprisionada.
E aquilo que foi projetado como solução pode, diante de uma próxima precipitação mais intensa, provocar o maior alagamento da região em décadas.
Resolver problema de água de baixo para cima não funciona.
A lógica que proponho é outra: agir na origem. Controlar a vazão onde ela começa — não onde ela explode.
Por isso, apresento uma proposta clara e viável:
- Construção de uma barragem de contenção na parte alta do Bairro Amazonas, na região conhecida como Morro do Sabão;
- Essa barragem permitiria regular o fluxo da água antes que ela desça para o Industrial;
- E mais: o reservatório poderia ser usado para abastecimento dos bairros vizinhos, servindo como solução hídrica complementar.
Isso é geografia aplicada à gestão pública.
É urbanismo inteligente.
É prevenção, não apenas reação.
As cidades-esponja são a chave para o futuro.
Elas reduzem alagamentos, amenizam ilhas de calor, armazenam água, aumentam áreas verdes e restauram a relação entre a cidade e a natureza.
E mais do que técnica, isso também é fé.
Cuidar da água, do solo, das vidas é um ato de responsabilidade espiritual.
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